Você sabe o que é zouk? Definitivamente é algo que eu não esperava aprender em Londres. A aula começou quando uma versão do Nelsão gay (pra quem não sabe, Nelson era meu professor de educação física no colégio) com uma bandana na cabeça se apresentou. Alguma de vocês já dançou lambada?
Lembrei dos tempos remotos, quando meu pai me chamava pra dançar e eu batia praticamente nos joelhos dele. "Não, nunca dancei"- respondi. Estávamos eu, uma japonesa e uma suiça dois minutos depois se esticando em um aquecimento com dança contemporânea. A versão feminina do Nelson, juro é igual, media uns dois metros de altura e usava duas polainas vermelhas, a bandana azul na cabeça e dois elásticos cor-de-rosa nos pulsos.
O bar fica em Notting Hill. Só negão chegado jogando xadrez, entornando umas cervejas e jogando sinuca. Nos fundos duas portas enormes e dentro um palco enorme, com uma bateria e um piano (que funcionam nas noites de blues). As aulas custam 3 pounds. Uma barganha. Ganho nove pounds só com as gorgetas no bar que trabalho.
Os exercícios bizarros misturam balé e yoga. Só tivemos que imitar a Nelsão. Depois de uma hora chegaram os outros alunos. Esses decidiram pular a parte contemporânea e ir direto pro remelexo. Zouk é uma espécie de lambada hipnotizante. A música é geralmente cantada por um bonito português angolano, um baita suingue e uma letra breguíssima. Grande parte vem do improviso da dupla. Os movimentos vão de rodopios à abaixadas, giradas de braço, de cabeça, cruzadas de perna a vôos saltitantes na pista. (vôo não tem mais acento, né?)
Enfim, momento emocionante: Nelsoa me chama pra dançar. Simplesmente fluiu. A lambada dos meus quatro anos de idade ajudaram. Que emoção, estava me sentido conduzida por uma bailarino. Aquilo é uma piração tão grande que você se sente voando na pista. Ouvi um "very good", quase chorei ao som do português cantando blasfêmias.
Essas serão minhas próximas segundas-feiras, que alegria!
segunda-feira, 6 de abril de 2009
domingo, 29 de março de 2009
"Tanta Saudade"
Sete. Esse foi o número de vezes seguidas que eu assisti "Tanta Saudade", do Djavan com o Chico. (http://www.youtube.com/watch?v=Z4u55qGIerU)
Tava sentindo uma saudade imensa da música boa. Cansada de ouvir música do rádio londrino. A coisa parece tão feia (em termos musicais) por aqui que tem só três clubes de jazz. Fui até um na Carnaby Street sexta-feira, doida pra ouvir música que fala, que toca.
Acabei conversando com o velhinho da gaita, que tinha à disposição umas trinta gaitas durante o show. Ele me disse que o único bar de jazz no qual ele toca há quinze anos é aquele. Por falta de lugar. Ele mesmo falou: "Não entendo por que alguém não chega e diz, pô isso é uma boa idéia, vou abrir outro bar".
A apresentação foi bem legal, mas o blues não era exatamente o que eu estava procurando. Esse vídeo era o que eu estava procurando. Tanto que, mesmo com o áudio bem prejudicado, foi a melhor coisa que ouvi nos últimos 50 dias.
A saudade tá aumentando...
Tava sentindo uma saudade imensa da música boa. Cansada de ouvir música do rádio londrino. A coisa parece tão feia (em termos musicais) por aqui que tem só três clubes de jazz. Fui até um na Carnaby Street sexta-feira, doida pra ouvir música que fala, que toca.
Acabei conversando com o velhinho da gaita, que tinha à disposição umas trinta gaitas durante o show. Ele me disse que o único bar de jazz no qual ele toca há quinze anos é aquele. Por falta de lugar. Ele mesmo falou: "Não entendo por que alguém não chega e diz, pô isso é uma boa idéia, vou abrir outro bar".
A apresentação foi bem legal, mas o blues não era exatamente o que eu estava procurando. Esse vídeo era o que eu estava procurando. Tanto que, mesmo com o áudio bem prejudicado, foi a melhor coisa que ouvi nos últimos 50 dias.
A saudade tá aumentando...
sábado, 21 de março de 2009
Borough Market

Hoje acordei com fome. O dia começou no Borough Market. Um mercado onde estão os melhores queijos, tortas, trufas, legumes, linguiças, geléias e azeites de Londres.
Fui tomar café da manhã com a Ju lá. Estávamos encantadas. Antes de decidir o que comer, estava entre uma paella e um sanduíche com chorizo, experimentamos umas trufas com café, mel, gengibre e bayles.
Depois foi a vez dos azeites. As texturas mais variadas. Cheiros e gostos de limão, de manjericão, de vinagre balsâmico.
Queijos e queijos, franceses e italianos. Os italianos parecem mais duros e densos, como a italianada. Enquanto os franceses eram mais cremosos, com sabor mais delicado.
Uma orgia de comida.
Depois de lá, fomos pro St. Jaymes Park. Com um sol lindo e um vento de congelar os ossos. O parque estava coberto de cerejeiras, esquilos, patos, pelicanos e gente, muita gente.
A Ju teve a brilhante idéia de irmos pra sorveteria da Haagen Dazs. Sim, uma vez que se começa a comer, é difícil parar! Dá-lhe crepe com banana, doce de leite e sorvete de creme!
Depois de lá, não satisfeitas, fomos comer um waffle na Oxford Street. Quinze quilos mais gorda, voltei pra casa muito feliz e com uma cerveja alemã na mão!
Fui tomar café da manhã com a Ju lá. Estávamos encantadas. Antes de decidir o que comer, estava entre uma paella e um sanduíche com chorizo, experimentamos umas trufas com café, mel, gengibre e bayles.
Depois foi a vez dos azeites. As texturas mais variadas. Cheiros e gostos de limão, de manjericão, de vinagre balsâmico.
Queijos e queijos, franceses e italianos. Os italianos parecem mais duros e densos, como a italianada. Enquanto os franceses eram mais cremosos, com sabor mais delicado.
Uma orgia de comida.
Depois de lá, fomos pro St. Jaymes Park. Com um sol lindo e um vento de congelar os ossos. O parque estava coberto de cerejeiras, esquilos, patos, pelicanos e gente, muita gente.
A Ju teve a brilhante idéia de irmos pra sorveteria da Haagen Dazs. Sim, uma vez que se começa a comer, é difícil parar! Dá-lhe crepe com banana, doce de leite e sorvete de creme!
Depois de lá, não satisfeitas, fomos comer um waffle na Oxford Street. Quinze quilos mais gorda, voltei pra casa muito feliz e com uma cerveja alemã na mão!
terça-feira, 17 de março de 2009
Candem Town
Quinta passada conheci o bairro "punk" de Londres. Candem Town parece uma grande butique a céu aberto. Cheio de espartilhos, cintos, cintas ligas, camisetas lindas, broches, lenços, botas. Uou. Quase acabei com meu dinheiro. Comprei uma jaqueta de couro, sim! E uma bota panqueca.
Algumas lojas eram bem antigas, cheias de vestidos meio medievais, meio de puta, meio de punk.
Os restaurantes vegetarianos valem a pena!
As duas principais feiras são a Candem Lock e a Candem Market. Todas com All Stars lindos e camisetas do caramba.
Nunca pensei que gastaria tanto no bairro "punk". Ainda volto pra comprar a meia arrastão...
Algumas lojas eram bem antigas, cheias de vestidos meio medievais, meio de puta, meio de punk.
Os restaurantes vegetarianos valem a pena!
As duas principais feiras são a Candem Lock e a Candem Market. Todas com All Stars lindos e camisetas do caramba.
Nunca pensei que gastaria tanto no bairro "punk". Ainda volto pra comprar a meia arrastão...
Em Londres de pijama
O Pub CaminoO dia começa quando você tem roupas pra sair de casa. Hoje tinha um treinamento no meu trabalho, tinha que experimentar e aprender a fazer coquetéis. Dá para imaginar a minha ansiedade para tal tarefa. Acordei às 7 da manhã e fui ao banheiro. Estava naqueles dias em que você abre um sorriso para o espelho. Qualquer lugar que refletisse minha imagem era um motivo para eu sorrir. Até que meu rosto começou a mudar de forma...
Lembrei que havia deixado a chave dentro do quarto! Minha porta se fecha para todo o sempre uma vez que ela bate. Assim, ao tentar girar a maçaneta descobri que estava presa para fora do meu quarto.
Virei uma neurótica. Fui até o andar de baixo e acordei os espanhóis para me ajudar. Pedi dinheiro e um celular. O celular do garoto tinha 50p, o suficiente para duas ligações. Liguei para a minha roomate e combinei de encontrá-la em Chelsea (uns 40 minutos da minha casa).
Fui de pijama, uma linda blusa cor-de-abóbora e uma calça verde limão.
Peguei as chaves e voltei pra casa a tempo de avisar no trabalho que atrasaria uma hora.
Passado o perrengue, foi só delícia. Experimentei margueritas, mojitos, caipirinhas, sangrias, cavas, rum, gim, tequilas e cervejas. Sim, no café da manhã. O restaurante é espanhol, mas a cachaça e a caipirinha, por motivos óbvios, foram acrescentados no menu.
Saí de lá com muita informação na cabeça, estômago vazio e um tanto bêbada.
Depois de um Mcdonald´s fui pra aula de inglês e...surpresa! Um teste para a turma de Cambridge! Enfim, a sorte era que o exame tava coxinha. E a embriaguez ajudou na redação.
Antes de voltar pra casa comprei Leffs e pipoca pros espanhóis e chocolate pra roomate, afinal, causei na casa e sabe-se lá quando esquecerei as chaves novamente!..
Lembrei que havia deixado a chave dentro do quarto! Minha porta se fecha para todo o sempre uma vez que ela bate. Assim, ao tentar girar a maçaneta descobri que estava presa para fora do meu quarto.
Virei uma neurótica. Fui até o andar de baixo e acordei os espanhóis para me ajudar. Pedi dinheiro e um celular. O celular do garoto tinha 50p, o suficiente para duas ligações. Liguei para a minha roomate e combinei de encontrá-la em Chelsea (uns 40 minutos da minha casa).
Fui de pijama, uma linda blusa cor-de-abóbora e uma calça verde limão.
Peguei as chaves e voltei pra casa a tempo de avisar no trabalho que atrasaria uma hora.
Passado o perrengue, foi só delícia. Experimentei margueritas, mojitos, caipirinhas, sangrias, cavas, rum, gim, tequilas e cervejas. Sim, no café da manhã. O restaurante é espanhol, mas a cachaça e a caipirinha, por motivos óbvios, foram acrescentados no menu.
Saí de lá com muita informação na cabeça, estômago vazio e um tanto bêbada.
Depois de um Mcdonald´s fui pra aula de inglês e...surpresa! Um teste para a turma de Cambridge! Enfim, a sorte era que o exame tava coxinha. E a embriaguez ajudou na redação.
Antes de voltar pra casa comprei Leffs e pipoca pros espanhóis e chocolate pra roomate, afinal, causei na casa e sabe-se lá quando esquecerei as chaves novamente!..
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Dia de cão
Sempre que tudo dá errado em meu dia, penso naqueles cães raivosos cheios de espuma na boca. O problema é que não tenho espuma, e nem sempre os outros percebem o limite da minha loucura.
Nesses dias espumosos somos como um imã de xingamentos, ira, tristeza dos outros. É como se a nossa raiva atraísse a dos outros e assim fosse aumentando até um limite, que ainda não sei qual é.
Hoje não confio em quase ninguém. E tenho que me preocupar com o fraco escudo que ainda me resta. Escudo feito de cascas porosas, por onde observo mais pessoas agredindo umas às outras.
A situação que me fez misturar tudo aconteceu hoje, quando um louco me perseguiu, tentou me enfiar dentro de um carro. Fiquei com muita raiva da covardia dele, mas além de tudo indignada pela fragilidade de ser mulher.
Em um mundo que espera a realidade de um contrato social, a valentia, o preconceito, a força ainda são as maiores armas contra a mulher. E fico esperando a inversão da situação. Quando vou poder ser boa, sem esperar um tapa na cara. Quando um ato violento terá em troca o desprezo. Quando a minha ingenuidade não atrairá descaso. Quando o egoísmo não será mais a principal força dos seres humanos.
Nesses dias espumosos somos como um imã de xingamentos, ira, tristeza dos outros. É como se a nossa raiva atraísse a dos outros e assim fosse aumentando até um limite, que ainda não sei qual é.
Hoje não confio em quase ninguém. E tenho que me preocupar com o fraco escudo que ainda me resta. Escudo feito de cascas porosas, por onde observo mais pessoas agredindo umas às outras.
A situação que me fez misturar tudo aconteceu hoje, quando um louco me perseguiu, tentou me enfiar dentro de um carro. Fiquei com muita raiva da covardia dele, mas além de tudo indignada pela fragilidade de ser mulher.
Em um mundo que espera a realidade de um contrato social, a valentia, o preconceito, a força ainda são as maiores armas contra a mulher. E fico esperando a inversão da situação. Quando vou poder ser boa, sem esperar um tapa na cara. Quando um ato violento terá em troca o desprezo. Quando a minha ingenuidade não atrairá descaso. Quando o egoísmo não será mais a principal força dos seres humanos.
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Quero lama pelos poros
"Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a esse artifício conseguimos suportar o passado". A frase é de García Márquez, o colombiano que consegue permear o tempo, como se conseguisse voltar cem anos atrás e arrancar pedaços de momentos para trazer até nós. A frase é de um tom pessimista, mas serve para botar os pés no chão, bem perto das ranhuras de um solo seco em que pisamos. A minha mania de elocubrar é absurda. Tenho vivido de mitificar os outros. Não todos. Especificamente uma pessoa. Não por minha culpa, eu tentei pegar a realidade pela mão, sentir o mais duro dos encontros entre os corpos. Um duro que pode se tornar líquido, que desejo tornar líquido. Mas que só pode assim se fazer, se deixar conhecer. Com uma puta audácia, trocaria o "suportar o passado", por suportar o presente. Porque tenho tido a necessidade de recorrer à ficção para suportar a realidade, para entendê-la. Trata-se de um desespero de deixar as delícias serem adiadas. Querodeixar de pisar em ovos, quero ou flutuar, ou afundar os pés na lama.
terça-feira, 29 de abril de 2008
Gal
Gal. Da pureza e sensualidade transformou dois. Vontade de escrever bonito vem com felicidade, às vezes sai bobo, outras profundo. Me sinto uma criança boba, a balançar os braços e as mãos cruzadas, de um lado para o outro. A trança brota com um laço, a boca pede água, a sede não passa. Gosto de pêssego, o líquido escorre como um rio. Não esperava não, Bethânia antes me convencia mais, com toda aquela dramaturgia. Mas eis que me apaixonei de novo, mas a sensação é mais delicada, é gal.
domingo, 23 de dezembro de 2007
Nunca estamos sós
Estou farta de sentir dores no peito, feridas que não cicatrizam, e vão formando imensas quelóides. Uma por cima da outra. Meu estômago dói. O ar é suficiente apenas para manter-me viva, a sentir essa tristeza que me toma.
Por que fui inventar aquela promessa? Devia saber que Iemanjá era forte demais e coração demais, e não poderia me dar um amor sem os rebuliços do mar...
Ganhei sim o amor, a música, a paixão, a companhia, mas também a dor, o choro, as lágrimas, que me fazem lembrar de onde ele veio.
Por isso, cuidado ao desejar. Para não perder-se entre o bem e o castigo. Existirá um que prevalece?
Não, não posso ser cética e fingir que tudo isso esteja acontecendo assim ao acaso. Não se trata de acaso, e sim, de um acordo cerrado entre as ondas, as espumas e as águas daquele dia em que fui desejar.
Por que fui inventar aquela promessa? Devia saber que Iemanjá era forte demais e coração demais, e não poderia me dar um amor sem os rebuliços do mar...
Ganhei sim o amor, a música, a paixão, a companhia, mas também a dor, o choro, as lágrimas, que me fazem lembrar de onde ele veio.
Por isso, cuidado ao desejar. Para não perder-se entre o bem e o castigo. Existirá um que prevalece?
Não, não posso ser cética e fingir que tudo isso esteja acontecendo assim ao acaso. Não se trata de acaso, e sim, de um acordo cerrado entre as ondas, as espumas e as águas daquele dia em que fui desejar.
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
Cheiro de peixe
Quem gosta de ser uma sardinha? É o que me pergunto toda vez que saio de casa depois das seis da tarde a fim de ir para a PUC. A lotação Jardim Jaqueline é um abuso aos cidadãos que buscam dignidade, direito a um bom transporte público, chegar ao trabalho, manter a coluna vertebral inteira e a calma controlada.
A começar que quase não se consegue entrar na "lotação" (e que nome medonho!), pois a porta é a mesma para quem sai. Além dos bancos lotados e caindo aos pedaços, muitas, mas muitas, pessoas em pé se colando umas as outras se aglomeram no veículo.
E como se não bastasse o absurdo da situação, o cobrador sempre gosta de dizer: "Vamos lá pessoal dêem mais um passinho para trás, lá no fundo tá vazio que eu estou vendo daqui...". Diz isso com a intenção de colocar os que chegam ao carro mais rápido e claro ganhar mais dinheiro, deve pensar ele que ganha também a simpatia dos que acabam de chegar, pois terão alguns milimetros a mais para se acomodarem.
Na segunda-feira aconteceu então o ápice, a tradução do espírito de porco em um homem: o motorista do Butantã-USP que passa na PUC lá pelas 23h quis me aleijar. Estava tentando descer quando senti que faltava algo. Era minha perna, que estava do lado de fora sendo esmagada pela porta do busão. O motorista (cujo nome pretendo descobrir para não acusar tantos outros simpáticos motoristas do Butantã) resolveu que eu demorara para descer do ônibus "dele" e resolveu me trancar para dentro, fechar a porta em mim, e ainda deixar minha perna presa do lado de fora.
Comecei a gritar desesperadamente, pedindo que ele não fechasse a porta. Depois de alguns segundos ele resolveu abrir, o carro ainda estava parado. Ele quis foi me dar um castigo, pois o tempo em que permaneci sem perna, era o tempo dele me deixar descer sem acidentes. Comprovei isso, pois uma colega minha estava junto e ouve todos os dias ele dizer..."e aquela sua amiga héim, precisa ser menos folgadinha..."
Quando desci até tentei achar alguma graça na situação. Mas não houve. Então tentei pensar no que fazer, ir à polícia, anotar a placa do ônibus, ligar na prefeitura, nas rádios. Acho que as opções 1 e 2 não funcionariam, prefiro as duas últimas. Procuro uma saída para amenizar o cheiro de sardinha que assola a nós cidadãos brasileiros. Ninguém quer ter o direito a feder a peixe.
A começar que quase não se consegue entrar na "lotação" (e que nome medonho!), pois a porta é a mesma para quem sai. Além dos bancos lotados e caindo aos pedaços, muitas, mas muitas, pessoas em pé se colando umas as outras se aglomeram no veículo.
E como se não bastasse o absurdo da situação, o cobrador sempre gosta de dizer: "Vamos lá pessoal dêem mais um passinho para trás, lá no fundo tá vazio que eu estou vendo daqui...". Diz isso com a intenção de colocar os que chegam ao carro mais rápido e claro ganhar mais dinheiro, deve pensar ele que ganha também a simpatia dos que acabam de chegar, pois terão alguns milimetros a mais para se acomodarem.
Na segunda-feira aconteceu então o ápice, a tradução do espírito de porco em um homem: o motorista do Butantã-USP que passa na PUC lá pelas 23h quis me aleijar. Estava tentando descer quando senti que faltava algo. Era minha perna, que estava do lado de fora sendo esmagada pela porta do busão. O motorista (cujo nome pretendo descobrir para não acusar tantos outros simpáticos motoristas do Butantã) resolveu que eu demorara para descer do ônibus "dele" e resolveu me trancar para dentro, fechar a porta em mim, e ainda deixar minha perna presa do lado de fora.
Comecei a gritar desesperadamente, pedindo que ele não fechasse a porta. Depois de alguns segundos ele resolveu abrir, o carro ainda estava parado. Ele quis foi me dar um castigo, pois o tempo em que permaneci sem perna, era o tempo dele me deixar descer sem acidentes. Comprovei isso, pois uma colega minha estava junto e ouve todos os dias ele dizer..."e aquela sua amiga héim, precisa ser menos folgadinha..."
Quando desci até tentei achar alguma graça na situação. Mas não houve. Então tentei pensar no que fazer, ir à polícia, anotar a placa do ônibus, ligar na prefeitura, nas rádios. Acho que as opções 1 e 2 não funcionariam, prefiro as duas últimas. Procuro uma saída para amenizar o cheiro de sardinha que assola a nós cidadãos brasileiros. Ninguém quer ter o direito a feder a peixe.
terça-feira, 4 de setembro de 2007
"O Bife com Batatas Fritas"
Roland Barthes
Mitologias
"O bife e o vinho compartilham a mitologia sangüínea. É o coração da carne; é esta em seu estado puro, e qualquer um que a consuma assimila a força do touro. Obviamente, o prestígio do bife deve-se ao seu estado de simicrueza: nele o sangue é simultaneamente visível, denso, compacto e suscetível de ser cortado: imagina-se logo a ambrosia antiga sob a forma de uma matéria pesada que diminui entre os dentes, de modo a fazer com que se sinta ao mesmo tempo a sua força de origem e a sua plasticidade se expandirem no próprio sangue do homem. O estado sangüíneo é a razão de ser do bife: os graus de sua preparação são expressos não em calorias, mas em imagens de sangue(...) A sua preparação, mesmo moderada, não pode se exprimir francamente; para este estado contrário à natureza, é necessário um eufemismo: diz-se que 'o bife está no ponto´, o que, na verdade, é apresentado mais como um limite do que como uma perfeição.
Comer um bife sangrando representa assim, ao mesmo tempo, uma natureza e uma moral (...) E assim como o vinho se transforma, para um bom número de intelectuais, em substância mediúnica que os conduz à força original da natureza, do mesmo modo o bife é para eles um alimento de redenção, graças ao qual tornam o seu cerebralismo mais prosaico e conjuram, pelo sangue e a polpa mole, a secura estéril de que são acusados.
A moda do bife tártaro, por exemplo, constitui uma operação de exorcismo contra a associação romântica da sensibilidade e do aspecto doentio: na preparação do bife tártaro, estão presentes todos os estados germinantes da matéria: o purê sangüíneo e a clara viscosa do ovo, um concerto de substâncias moles e vivas, uma espécie de compêndio significativo das imagens dos prelúdios do parto.
Tal como vinho, na França o bife é um elemento básico, mais nacionalizado do que socializado, estando presente em todos os cenários da vida alimentar: chato, debruado de gordura e em forma de sola de sapato nos restaurantes baratos; espesso e suculento nos restaurantes especializados; cúbico, o coração úmido, sob uma fina crosta carbonizada, na cozinha de primeira; participa de todos os ritmos, desde a confortável refeição burguesa ao lanche boêmio do celibatário; é uma alimentação simultâneamente rápida e densa, que realiza a mais perfeita união entre a economia e a eficácia, a mitologia e a plasticidade do seu consumo..."
Mitologias
"O bife e o vinho compartilham a mitologia sangüínea. É o coração da carne; é esta em seu estado puro, e qualquer um que a consuma assimila a força do touro. Obviamente, o prestígio do bife deve-se ao seu estado de simicrueza: nele o sangue é simultaneamente visível, denso, compacto e suscetível de ser cortado: imagina-se logo a ambrosia antiga sob a forma de uma matéria pesada que diminui entre os dentes, de modo a fazer com que se sinta ao mesmo tempo a sua força de origem e a sua plasticidade se expandirem no próprio sangue do homem. O estado sangüíneo é a razão de ser do bife: os graus de sua preparação são expressos não em calorias, mas em imagens de sangue(...) A sua preparação, mesmo moderada, não pode se exprimir francamente; para este estado contrário à natureza, é necessário um eufemismo: diz-se que 'o bife está no ponto´, o que, na verdade, é apresentado mais como um limite do que como uma perfeição.
Comer um bife sangrando representa assim, ao mesmo tempo, uma natureza e uma moral (...) E assim como o vinho se transforma, para um bom número de intelectuais, em substância mediúnica que os conduz à força original da natureza, do mesmo modo o bife é para eles um alimento de redenção, graças ao qual tornam o seu cerebralismo mais prosaico e conjuram, pelo sangue e a polpa mole, a secura estéril de que são acusados.
A moda do bife tártaro, por exemplo, constitui uma operação de exorcismo contra a associação romântica da sensibilidade e do aspecto doentio: na preparação do bife tártaro, estão presentes todos os estados germinantes da matéria: o purê sangüíneo e a clara viscosa do ovo, um concerto de substâncias moles e vivas, uma espécie de compêndio significativo das imagens dos prelúdios do parto.
Tal como vinho, na França o bife é um elemento básico, mais nacionalizado do que socializado, estando presente em todos os cenários da vida alimentar: chato, debruado de gordura e em forma de sola de sapato nos restaurantes baratos; espesso e suculento nos restaurantes especializados; cúbico, o coração úmido, sob uma fina crosta carbonizada, na cozinha de primeira; participa de todos os ritmos, desde a confortável refeição burguesa ao lanche boêmio do celibatário; é uma alimentação simultâneamente rápida e densa, que realiza a mais perfeita união entre a economia e a eficácia, a mitologia e a plasticidade do seu consumo..."
terça-feira, 21 de agosto de 2007
A Endoscopia dos Vegetarianos
Fiquei um tempo sem escrever porque virei vegetariana e plantadora de erva-cidreira. Como tenho apenas quartas e quinta-feiras livres, decidi aprender a lidar com sementes, soja e trocentos legumes que não conhecia.
Mas não foi assim tão fácil virar saudável. Tudo começou como um soco no estômago. Três dias de ressaca, por culpa dos meus cinco cafés por dia, nada no jantar e cerveja quatro vezes por semana.
O médico apalpou minha barriga dizendo, "é temos aqui uma leve gastrite...você vai ter que fazer uma ENDOSCOPIA".
A palavra fez doer ainda mais o estômago, lembrei do que meu avô contava, daquele cano, que na ponta leva uma minicâmera, descendo pela goela até a extremidade do corpo. Nojo.
Para me livrar do tal exame endoscópico decidi limpar o corpo eu mesma. Agora pela goela ao invés de canos, descem quibes de abóbora, pães integrais, medalhões de ricota e sucos de cidreira.
Talvez comece a escrever sobre carnívoros e viciados em cafeína para suprir meu intenso desejo por aquilo que eles consomem, aliviando assim meu subconsciente.
Mas não foi assim tão fácil virar saudável. Tudo começou como um soco no estômago. Três dias de ressaca, por culpa dos meus cinco cafés por dia, nada no jantar e cerveja quatro vezes por semana.
O médico apalpou minha barriga dizendo, "é temos aqui uma leve gastrite...você vai ter que fazer uma ENDOSCOPIA".
A palavra fez doer ainda mais o estômago, lembrei do que meu avô contava, daquele cano, que na ponta leva uma minicâmera, descendo pela goela até a extremidade do corpo. Nojo.
Para me livrar do tal exame endoscópico decidi limpar o corpo eu mesma. Agora pela goela ao invés de canos, descem quibes de abóbora, pães integrais, medalhões de ricota e sucos de cidreira.
Talvez comece a escrever sobre carnívoros e viciados em cafeína para suprir meu intenso desejo por aquilo que eles consomem, aliviando assim meu subconsciente.
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
Você sabe o que é Cochonila?
Pesquisando receitas vegetarianas no site www.vegetarianismo.com.br encontrei mais uma denúncia daqueles que não comem carne às atrocidades cometidas pelos carnívoros.
Falo da Cochonila. Que segundo o site é "um corante vermelho intenso feito com corpos secos de Dactylopius coccus, um inseto mexicano. Bilhões de insetos são criados e destruídos todo ano na fabricação de um corante vermelho usado em sobremesas, leites de soja sabor morango, roupas etc". Bizarro.
Falo da Cochonila. Que segundo o site é "um corante vermelho intenso feito com corpos secos de Dactylopius coccus, um inseto mexicano. Bilhões de insetos são criados e destruídos todo ano na fabricação de um corante vermelho usado em sobremesas, leites de soja sabor morango, roupas etc". Bizarro.
terça-feira, 7 de agosto de 2007
Para os comentadores
Não posso deixar de fazer menção aos comentários dos prezados Carlos Cecconello e Clara Caldeira, que se encontram no artigo da "Bunda" e do afrancesado La Serveuse. Devo agradecer por aqui mesmo, já que é muito bizarro comentar no meu próprio blog.
Estranho porque não é como responder um e-mail ou mandar um "scrap" de volta no yogurte. Pois apesar do papel que devo assumir de mediadora, parece que estou respondendo para mim mesma.
Sobre a fronteira entre literário e jornalístico (fez cócegas no umbigo ler isso de dona Caldeira!) ouvimos hoje mesmo de nosso "Walter Ego" a classificação das crônicas que é entre a arte e o jornalismo. Espero poder viver sempre nesse lugar aliás! E o texto The Tv Cave é meu (opa). A sessão leitura, aconteceu na aula do Faro.
E quanto à Cecconello, agradeço a compreensão em relação a minha figuração como garçonete aos fins-de-semana, e devo dizer que você deveria colocar no youtube a sua encenação como batedor de pênalti nas eleições, "mais um brasileiro participativo, votando com carinho"!uhuhu, rsss...
Um abraço queridos!
Estranho porque não é como responder um e-mail ou mandar um "scrap" de volta no yogurte. Pois apesar do papel que devo assumir de mediadora, parece que estou respondendo para mim mesma.
Sobre a fronteira entre literário e jornalístico (fez cócegas no umbigo ler isso de dona Caldeira!) ouvimos hoje mesmo de nosso "Walter Ego" a classificação das crônicas que é entre a arte e o jornalismo. Espero poder viver sempre nesse lugar aliás! E o texto The Tv Cave é meu (opa). A sessão leitura, aconteceu na aula do Faro.
E quanto à Cecconello, agradeço a compreensão em relação a minha figuração como garçonete aos fins-de-semana, e devo dizer que você deveria colocar no youtube a sua encenação como batedor de pênalti nas eleições, "mais um brasileiro participativo, votando com carinho"!uhuhu, rsss...
Um abraço queridos!
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
Olha só a pérola enviada pelo glorioso prof. José Arbex:

"A experiente jornalista Susan Bunda acaba de ser promovida Presidenta de Desenvolvimento e Estratégia da CNN Internacional. Na sua nova posição, segundo informa a assessoria de imprensa da rede de TV, Bunda terá novos desafios, como o desenvolvimento de palataformas para consumidores e o incentivo a novos talentos jornalísticos. Com 20 anos de experiência, Bunda também deve trabalhar na integração da televisão e da internet".
domingo, 22 de julho de 2007
The TV Cave
Acorda, pega o isqueiro, o cilindro cancerígeno e leva o último até a boca. Ainda se encontra deitada, com metade do rosto iluminado pelo dia. Basta um encontro de luzes e o marlboro está aceso. E ela traga sem piscar.
Ana Luzia é uma menina amarela; nunca sai, não janta fora, nem encontra amigos. Só tem um hobbie, com o qual ocupa o dia inteiro, assistir televisão.
Por isso, logo depois de seu cigarro, estendeu a mão até o controle remoto e ligou todos os seus fetiches, sonhos e aspirações de uma só vez...
O que ela encontrou foi um daqueles programas de culinária, uma tal de Claudete dando a receita de uma torta de chocolate. E nos intervalos, como de costume, estavam os aparelhos emagrecedores, os cremes anti-celulite, a máscara contra espinhas.
Ana se viu num paradoxo, do qual nós somos vítimas ao assistir programas como esse, ela não sabia se comia uma torta de chocolate ou se ligava para o "zero-onze-quatorze-zero-meia"a fim de pedir o abshaper, o aparelho que dá choques na barriga e "faz"com que as gorduras de tortas de chocolate vão embora.
Enfim o que ela decidiu foi mesmo comer, pois o estômago já parecia roncar, e ela poderia "malhar com a Claudete" e um grupo de lambaeróbica que estariam na telinha às duas da tarde.
Luzia morava sozinha, e nunca aprendera a cozinhar, então pediu uma torta por telefone e a comeu assistindo ao programa da Frangélica, onde Fábio Assunção contava sobre o sexo entre ele e sua namorada, como eles se vestiam um para o outro, a hora certa de pôr a camisinha; enquanto a apresentadora suspirava e concordava.
A menina não se incomodou com a entrevista que assistia, até que a namorada de Fábio apareceu na TV e deu um beijo no namorado. Nessa hora Ana sentiu uma dor de enjôo que a fez parar de comer. Foi então até a janela e olhou para todas as pessoas que andavam pelas ruas, olhou para um bar que ficava de frente para sua casa e assistiu as pessoas se divertindo. Mas, de alguma forma, elas não a convidavam, nem a faziam se sentir bem, como na televisão.
Por isso, a dor começou a aumentar e uma lágrima quase caiu, porém Luzia recuperou suas forças ao olhar para o caixote eletrônico; um filme de amor começaria dali a duas horas e o coração dela voltou a bater apressado e "feliz".
A história era de um casal de adolescentes que estudavam na mesma escola e se apaixonam, e após vários conflitos, trapalhadas, erros e acertos eles terminam juntos e felizes para sempre.
Com a TV ainda ligada, Ana enxuga as lágrimas de seu rosto e vai até o banheiro, porém não esquece de aumentar o volume para ouvir quando a ginástica da Claudete vai começar. Faz tudo apressado, dá descarga, lava as mãos e volta correndo para o seu quarto-sala, quando ouve a chamada do programa.
A lambaeróbica começa, os movimentos são repetidos por Ana que se cansa rápido, faz um bom tempo que ela anda fora de forma, desde os seis anos de idade, quando os pais começaram a deixá-la assistir televisão até tarde da noite. Ela dormia tarde, acordava tarde, portanto desencanava das atividades do dia e passou a comer muito mais, também pelo fato de "estar em fase de crescimento", como diz a lenda.
Enfim, depois de meia hora ela terminou os exercícios e resolveu deitar em sua cama. Pegou o controle, abaixou o volume e afundou a cabeça no travesseiro. Não conseguiu dormir, então levantou-se, caminhou até a cozinha, fez um hamburger e foi comer em sua cama. Assistiu a qualquer outra novela da globo. E voltou à cozinha, a fim de deixar seu prato no lava-louças.
Ia abrindo vagarosamete a máquina, quando subitamente a campainha tocou em um volume exagerado. Com o susto, Ana Luzia quebrou o prato. Porém sua reação seguinte não foi surpreendente, muito menos desesperada, não costumava ser assim, portanto caminhou até a porta e cumprimentou a única pessoa que a visitava toda semana, sua mãe.
Ana disse oi, a mãe, Lúcia, respondeu angustiada, a relação das duas era vazia, não possuíam nada em comum, nem se abraçavam muito.
Já dentro da casa, as duas se olharam e nada tinham pra trocar, então Dona Lúcia foi até a cozinha fazer uma pipoca, e Ana sem sorrisos a convidou para assistir televisão.
Então elas caminharam até a cama de Ana e por lá ficaram até que Luzia adormecesse. E pela primeira vez no dia a vida da menina foi desligada por um pesado controle remoto, e a mãe a cobriu e deu um beijo em seu rosto amarelado despedindo-se. Foi embora...deixando sua filha só na escuridão.
Ana Luzia é uma menina amarela; nunca sai, não janta fora, nem encontra amigos. Só tem um hobbie, com o qual ocupa o dia inteiro, assistir televisão.
Por isso, logo depois de seu cigarro, estendeu a mão até o controle remoto e ligou todos os seus fetiches, sonhos e aspirações de uma só vez...
O que ela encontrou foi um daqueles programas de culinária, uma tal de Claudete dando a receita de uma torta de chocolate. E nos intervalos, como de costume, estavam os aparelhos emagrecedores, os cremes anti-celulite, a máscara contra espinhas.
Ana se viu num paradoxo, do qual nós somos vítimas ao assistir programas como esse, ela não sabia se comia uma torta de chocolate ou se ligava para o "zero-onze-quatorze-zero-meia"a fim de pedir o abshaper, o aparelho que dá choques na barriga e "faz"com que as gorduras de tortas de chocolate vão embora.
Enfim o que ela decidiu foi mesmo comer, pois o estômago já parecia roncar, e ela poderia "malhar com a Claudete" e um grupo de lambaeróbica que estariam na telinha às duas da tarde.
Luzia morava sozinha, e nunca aprendera a cozinhar, então pediu uma torta por telefone e a comeu assistindo ao programa da Frangélica, onde Fábio Assunção contava sobre o sexo entre ele e sua namorada, como eles se vestiam um para o outro, a hora certa de pôr a camisinha; enquanto a apresentadora suspirava e concordava.
A menina não se incomodou com a entrevista que assistia, até que a namorada de Fábio apareceu na TV e deu um beijo no namorado. Nessa hora Ana sentiu uma dor de enjôo que a fez parar de comer. Foi então até a janela e olhou para todas as pessoas que andavam pelas ruas, olhou para um bar que ficava de frente para sua casa e assistiu as pessoas se divertindo. Mas, de alguma forma, elas não a convidavam, nem a faziam se sentir bem, como na televisão.
Por isso, a dor começou a aumentar e uma lágrima quase caiu, porém Luzia recuperou suas forças ao olhar para o caixote eletrônico; um filme de amor começaria dali a duas horas e o coração dela voltou a bater apressado e "feliz".
A história era de um casal de adolescentes que estudavam na mesma escola e se apaixonam, e após vários conflitos, trapalhadas, erros e acertos eles terminam juntos e felizes para sempre.
Com a TV ainda ligada, Ana enxuga as lágrimas de seu rosto e vai até o banheiro, porém não esquece de aumentar o volume para ouvir quando a ginástica da Claudete vai começar. Faz tudo apressado, dá descarga, lava as mãos e volta correndo para o seu quarto-sala, quando ouve a chamada do programa.
A lambaeróbica começa, os movimentos são repetidos por Ana que se cansa rápido, faz um bom tempo que ela anda fora de forma, desde os seis anos de idade, quando os pais começaram a deixá-la assistir televisão até tarde da noite. Ela dormia tarde, acordava tarde, portanto desencanava das atividades do dia e passou a comer muito mais, também pelo fato de "estar em fase de crescimento", como diz a lenda.
Enfim, depois de meia hora ela terminou os exercícios e resolveu deitar em sua cama. Pegou o controle, abaixou o volume e afundou a cabeça no travesseiro. Não conseguiu dormir, então levantou-se, caminhou até a cozinha, fez um hamburger e foi comer em sua cama. Assistiu a qualquer outra novela da globo. E voltou à cozinha, a fim de deixar seu prato no lava-louças.
Ia abrindo vagarosamete a máquina, quando subitamente a campainha tocou em um volume exagerado. Com o susto, Ana Luzia quebrou o prato. Porém sua reação seguinte não foi surpreendente, muito menos desesperada, não costumava ser assim, portanto caminhou até a porta e cumprimentou a única pessoa que a visitava toda semana, sua mãe.
Ana disse oi, a mãe, Lúcia, respondeu angustiada, a relação das duas era vazia, não possuíam nada em comum, nem se abraçavam muito.
Já dentro da casa, as duas se olharam e nada tinham pra trocar, então Dona Lúcia foi até a cozinha fazer uma pipoca, e Ana sem sorrisos a convidou para assistir televisão.
Então elas caminharam até a cama de Ana e por lá ficaram até que Luzia adormecesse. E pela primeira vez no dia a vida da menina foi desligada por um pesado controle remoto, e a mãe a cobriu e deu um beijo em seu rosto amarelado despedindo-se. Foi embora...deixando sua filha só na escuridão.
quarta-feira, 18 de julho de 2007
La Serveuse
Esse fim-de-semana participei de um filme. O nome é Sue Lee. Tudo começou com a Fernanda, minha colega-descolada de trabalho, perguntando:
- Amanda, você usa calça 38?
- Sim...acho que sim, as vezes 40, por quê?
- Porque você será a garçonete do meu filme...amanhã eu trago a roupa e você experimenta...
- Ih...não sei não, e se não servir?
- Ah, não se preocupe, vai servir sim...
No dia seguinte, fiquei quieta, mas Fernanda disse: "olha só o que eu trouxe"...E tirou uma calça azul jeans, com um elástico na parte de baixo, moderna, feito aqueles modelos copiados do nepal, junto vinha também um avental.
Experimentei e serviu. Logo, sábado, as 10h da manhã, (sábado!) estava eu na rua Peixoto Gomide, pronta para ser uma figurante, assim como as outras cinco pessoas ao meu redor. Um corre-corre, caixas e caixas de batom, lápis, pente, grampos...roupas espalhadas e pessoas modernetes conversando, cada um querendo saber o papel do outro.
A equipe surpreendeu, esperava uma meia dúzia de gato pingado e a mãe e avó da Fernanda cuidando do figurino e da maquiagem... Mas encontrei diretor de arte, fotógrafo, seguranças, servidores de lanche, duas maquiadoras e figurinistas lindas e diversos aparatos de filmagem.
Já pronta desci, ouvia a equipe posicionar todo mundo, inclusive eu. Era simples, servir um café numa mesa. Vinte vezes seguidas, claro, para que a sintonia com a câmera fosse perfeita. Mas não exigiu tanto esforço assim.
Ser figurante é engraçado, parece brincadeira, você não fala de verdade, não precisa ler o roteiro, nem sabe o título do filme...
De qualquer forma, uma vez lá, isso parece tomar uma importância gigantesca, talvez pelo fato de que eternizarão sua imagem no vídeo. As pessoas ficam fascinadas quando você diz que trabalhará num filme...Minha mãe contou pra todo mundo, tia, avô, amigos, primos, justificava minha ausência na reunião de domingo, dizendo que estava auxiliando numa produção de cinema.
E todos já aguardavam ansiosos para comprar o ingresso, queriam o nome do diretor, a história, saber onde ia passar...Achei tudo bizarro, claro. Por que se fascinam tanto com isso? Por que ter seu rosto publicado é tão importante?
Se eu escolhesse ser atriz será que teriam a mesma reação? Os seres imagéticos são sempre mais interessantes do que seres reais, veja, para minha vó é mais fácil dizer para sua vizinha, "olha aquela ali na tela é a minha neta"...Do que me apresentar pessoalmente a outra.
Oh...semiótica ajudai a esse povo carente de heróis...Que até eu pra criar glamour tô botando título afrancesado!
- Amanda, você usa calça 38?
- Sim...acho que sim, as vezes 40, por quê?
- Porque você será a garçonete do meu filme...amanhã eu trago a roupa e você experimenta...
- Ih...não sei não, e se não servir?
- Ah, não se preocupe, vai servir sim...
No dia seguinte, fiquei quieta, mas Fernanda disse: "olha só o que eu trouxe"...E tirou uma calça azul jeans, com um elástico na parte de baixo, moderna, feito aqueles modelos copiados do nepal, junto vinha também um avental.
Experimentei e serviu. Logo, sábado, as 10h da manhã, (sábado!) estava eu na rua Peixoto Gomide, pronta para ser uma figurante, assim como as outras cinco pessoas ao meu redor. Um corre-corre, caixas e caixas de batom, lápis, pente, grampos...roupas espalhadas e pessoas modernetes conversando, cada um querendo saber o papel do outro.
A equipe surpreendeu, esperava uma meia dúzia de gato pingado e a mãe e avó da Fernanda cuidando do figurino e da maquiagem... Mas encontrei diretor de arte, fotógrafo, seguranças, servidores de lanche, duas maquiadoras e figurinistas lindas e diversos aparatos de filmagem.
Já pronta desci, ouvia a equipe posicionar todo mundo, inclusive eu. Era simples, servir um café numa mesa. Vinte vezes seguidas, claro, para que a sintonia com a câmera fosse perfeita. Mas não exigiu tanto esforço assim.
Ser figurante é engraçado, parece brincadeira, você não fala de verdade, não precisa ler o roteiro, nem sabe o título do filme...
De qualquer forma, uma vez lá, isso parece tomar uma importância gigantesca, talvez pelo fato de que eternizarão sua imagem no vídeo. As pessoas ficam fascinadas quando você diz que trabalhará num filme...Minha mãe contou pra todo mundo, tia, avô, amigos, primos, justificava minha ausência na reunião de domingo, dizendo que estava auxiliando numa produção de cinema.
E todos já aguardavam ansiosos para comprar o ingresso, queriam o nome do diretor, a história, saber onde ia passar...Achei tudo bizarro, claro. Por que se fascinam tanto com isso? Por que ter seu rosto publicado é tão importante?
Se eu escolhesse ser atriz será que teriam a mesma reação? Os seres imagéticos são sempre mais interessantes do que seres reais, veja, para minha vó é mais fácil dizer para sua vizinha, "olha aquela ali na tela é a minha neta"...Do que me apresentar pessoalmente a outra.
Oh...semiótica ajudai a esse povo carente de heróis...Que até eu pra criar glamour tô botando título afrancesado!
segunda-feira, 16 de julho de 2007
Raspadinha
Por causa do Cildo Meireles entrei hoje no site da galeria Luisa Strina. Sensacional. Acabei descobrindo uma exposição, de Tonico Lemos Auad, onde há uma instalação com um papel de parede, revestido por uma tinta prateada "que pode ser arranhada e retirada pelo público", como uma "raspadinha"! Em baixo da tinta o artista criou umas imagens...
Não sei se a alegria maior quando eu era pequena era raspar com uma moeda o tal papel prateado, ou se ver o prêmio do bilhete comprado.
Na verdade dava um baita azar pra esses "sorteios", por isso acho que era mais uma curiosidade pelo que havia embaixo da tinta prateada, talvez a mesma que o garoto que lê revista de mulher pelada tem. Igual no processo de comprar na banca o bilhetinho, levar para casa e raspar sozinho, um certo egoísmo de ir para um canto e pensar "se eu raspar eu fico com o prêmio".
Tinha também aquela sensação gostosa de ver o pó prata sair, a mesma de arrancar a tinta de uma parede velha e lascada (nos sentimos uns vândalos fazendo isso, mas é tãooo bom).
Um certo prazer de depredar algo sem ser reprimida, estragar sem ouvir um não dos pais, pelo contrário ver os olhos deles brilharem na esperança de que você ganhe alguma coisa.
Agora, uma década mais tarde sinto o mesmo impulso ao saber da exposição do Tonico...Vou lascar mais uma parede.
Exposição Arqueologia Refletida
De 21 de maio a 28 de junho
www.galerialuisastrina.com.br
Não sei se a alegria maior quando eu era pequena era raspar com uma moeda o tal papel prateado, ou se ver o prêmio do bilhete comprado.
Na verdade dava um baita azar pra esses "sorteios", por isso acho que era mais uma curiosidade pelo que havia embaixo da tinta prateada, talvez a mesma que o garoto que lê revista de mulher pelada tem. Igual no processo de comprar na banca o bilhetinho, levar para casa e raspar sozinho, um certo egoísmo de ir para um canto e pensar "se eu raspar eu fico com o prêmio".
Tinha também aquela sensação gostosa de ver o pó prata sair, a mesma de arrancar a tinta de uma parede velha e lascada (nos sentimos uns vândalos fazendo isso, mas é tãooo bom).
Um certo prazer de depredar algo sem ser reprimida, estragar sem ouvir um não dos pais, pelo contrário ver os olhos deles brilharem na esperança de que você ganhe alguma coisa.
Agora, uma década mais tarde sinto o mesmo impulso ao saber da exposição do Tonico...Vou lascar mais uma parede.
Exposição Arqueologia Refletida
De 21 de maio a 28 de junho
www.galerialuisastrina.com.br
sexta-feira, 13 de julho de 2007
Corinthians ressurgirá das cinzas?
Insano...quem viu? Prisão preventiva do Kia e do Berezovski...E Dualib, Nesi Curi e Renato Duprat denunciados a Justiça Federal pelo Ministério Público.
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