Estou farta de sentir dores no peito, feridas que não cicatrizam, e vão formando imensas quelóides. Uma por cima da outra. Meu estômago dói. O ar é suficiente apenas para manter-me viva, a sentir essa tristeza que me toma.
Por que fui inventar aquela promessa? Devia saber que Iemanjá era forte demais e coração demais, e não poderia me dar um amor sem os rebuliços do mar...
Ganhei sim o amor, a música, a paixão, a companhia, mas também a dor, o choro, as lágrimas, que me fazem lembrar de onde ele veio.
Por isso, cuidado ao desejar. Para não perder-se entre o bem e o castigo. Existirá um que prevalece?
Não, não posso ser cética e fingir que tudo isso esteja acontecendo assim ao acaso. Não se trata de acaso, e sim, de um acordo cerrado entre as ondas, as espumas e as águas daquele dia em que fui desejar.
domingo, 23 de dezembro de 2007
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
Cheiro de peixe
Quem gosta de ser uma sardinha? É o que me pergunto toda vez que saio de casa depois das seis da tarde a fim de ir para a PUC. A lotação Jardim Jaqueline é um abuso aos cidadãos que buscam dignidade, direito a um bom transporte público, chegar ao trabalho, manter a coluna vertebral inteira e a calma controlada.
A começar que quase não se consegue entrar na "lotação" (e que nome medonho!), pois a porta é a mesma para quem sai. Além dos bancos lotados e caindo aos pedaços, muitas, mas muitas, pessoas em pé se colando umas as outras se aglomeram no veículo.
E como se não bastasse o absurdo da situação, o cobrador sempre gosta de dizer: "Vamos lá pessoal dêem mais um passinho para trás, lá no fundo tá vazio que eu estou vendo daqui...". Diz isso com a intenção de colocar os que chegam ao carro mais rápido e claro ganhar mais dinheiro, deve pensar ele que ganha também a simpatia dos que acabam de chegar, pois terão alguns milimetros a mais para se acomodarem.
Na segunda-feira aconteceu então o ápice, a tradução do espírito de porco em um homem: o motorista do Butantã-USP que passa na PUC lá pelas 23h quis me aleijar. Estava tentando descer quando senti que faltava algo. Era minha perna, que estava do lado de fora sendo esmagada pela porta do busão. O motorista (cujo nome pretendo descobrir para não acusar tantos outros simpáticos motoristas do Butantã) resolveu que eu demorara para descer do ônibus "dele" e resolveu me trancar para dentro, fechar a porta em mim, e ainda deixar minha perna presa do lado de fora.
Comecei a gritar desesperadamente, pedindo que ele não fechasse a porta. Depois de alguns segundos ele resolveu abrir, o carro ainda estava parado. Ele quis foi me dar um castigo, pois o tempo em que permaneci sem perna, era o tempo dele me deixar descer sem acidentes. Comprovei isso, pois uma colega minha estava junto e ouve todos os dias ele dizer..."e aquela sua amiga héim, precisa ser menos folgadinha..."
Quando desci até tentei achar alguma graça na situação. Mas não houve. Então tentei pensar no que fazer, ir à polícia, anotar a placa do ônibus, ligar na prefeitura, nas rádios. Acho que as opções 1 e 2 não funcionariam, prefiro as duas últimas. Procuro uma saída para amenizar o cheiro de sardinha que assola a nós cidadãos brasileiros. Ninguém quer ter o direito a feder a peixe.
A começar que quase não se consegue entrar na "lotação" (e que nome medonho!), pois a porta é a mesma para quem sai. Além dos bancos lotados e caindo aos pedaços, muitas, mas muitas, pessoas em pé se colando umas as outras se aglomeram no veículo.
E como se não bastasse o absurdo da situação, o cobrador sempre gosta de dizer: "Vamos lá pessoal dêem mais um passinho para trás, lá no fundo tá vazio que eu estou vendo daqui...". Diz isso com a intenção de colocar os que chegam ao carro mais rápido e claro ganhar mais dinheiro, deve pensar ele que ganha também a simpatia dos que acabam de chegar, pois terão alguns milimetros a mais para se acomodarem.
Na segunda-feira aconteceu então o ápice, a tradução do espírito de porco em um homem: o motorista do Butantã-USP que passa na PUC lá pelas 23h quis me aleijar. Estava tentando descer quando senti que faltava algo. Era minha perna, que estava do lado de fora sendo esmagada pela porta do busão. O motorista (cujo nome pretendo descobrir para não acusar tantos outros simpáticos motoristas do Butantã) resolveu que eu demorara para descer do ônibus "dele" e resolveu me trancar para dentro, fechar a porta em mim, e ainda deixar minha perna presa do lado de fora.
Comecei a gritar desesperadamente, pedindo que ele não fechasse a porta. Depois de alguns segundos ele resolveu abrir, o carro ainda estava parado. Ele quis foi me dar um castigo, pois o tempo em que permaneci sem perna, era o tempo dele me deixar descer sem acidentes. Comprovei isso, pois uma colega minha estava junto e ouve todos os dias ele dizer..."e aquela sua amiga héim, precisa ser menos folgadinha..."
Quando desci até tentei achar alguma graça na situação. Mas não houve. Então tentei pensar no que fazer, ir à polícia, anotar a placa do ônibus, ligar na prefeitura, nas rádios. Acho que as opções 1 e 2 não funcionariam, prefiro as duas últimas. Procuro uma saída para amenizar o cheiro de sardinha que assola a nós cidadãos brasileiros. Ninguém quer ter o direito a feder a peixe.
terça-feira, 4 de setembro de 2007
"O Bife com Batatas Fritas"
Roland Barthes
Mitologias
"O bife e o vinho compartilham a mitologia sangüínea. É o coração da carne; é esta em seu estado puro, e qualquer um que a consuma assimila a força do touro. Obviamente, o prestígio do bife deve-se ao seu estado de simicrueza: nele o sangue é simultaneamente visível, denso, compacto e suscetível de ser cortado: imagina-se logo a ambrosia antiga sob a forma de uma matéria pesada que diminui entre os dentes, de modo a fazer com que se sinta ao mesmo tempo a sua força de origem e a sua plasticidade se expandirem no próprio sangue do homem. O estado sangüíneo é a razão de ser do bife: os graus de sua preparação são expressos não em calorias, mas em imagens de sangue(...) A sua preparação, mesmo moderada, não pode se exprimir francamente; para este estado contrário à natureza, é necessário um eufemismo: diz-se que 'o bife está no ponto´, o que, na verdade, é apresentado mais como um limite do que como uma perfeição.
Comer um bife sangrando representa assim, ao mesmo tempo, uma natureza e uma moral (...) E assim como o vinho se transforma, para um bom número de intelectuais, em substância mediúnica que os conduz à força original da natureza, do mesmo modo o bife é para eles um alimento de redenção, graças ao qual tornam o seu cerebralismo mais prosaico e conjuram, pelo sangue e a polpa mole, a secura estéril de que são acusados.
A moda do bife tártaro, por exemplo, constitui uma operação de exorcismo contra a associação romântica da sensibilidade e do aspecto doentio: na preparação do bife tártaro, estão presentes todos os estados germinantes da matéria: o purê sangüíneo e a clara viscosa do ovo, um concerto de substâncias moles e vivas, uma espécie de compêndio significativo das imagens dos prelúdios do parto.
Tal como vinho, na França o bife é um elemento básico, mais nacionalizado do que socializado, estando presente em todos os cenários da vida alimentar: chato, debruado de gordura e em forma de sola de sapato nos restaurantes baratos; espesso e suculento nos restaurantes especializados; cúbico, o coração úmido, sob uma fina crosta carbonizada, na cozinha de primeira; participa de todos os ritmos, desde a confortável refeição burguesa ao lanche boêmio do celibatário; é uma alimentação simultâneamente rápida e densa, que realiza a mais perfeita união entre a economia e a eficácia, a mitologia e a plasticidade do seu consumo..."
Mitologias
"O bife e o vinho compartilham a mitologia sangüínea. É o coração da carne; é esta em seu estado puro, e qualquer um que a consuma assimila a força do touro. Obviamente, o prestígio do bife deve-se ao seu estado de simicrueza: nele o sangue é simultaneamente visível, denso, compacto e suscetível de ser cortado: imagina-se logo a ambrosia antiga sob a forma de uma matéria pesada que diminui entre os dentes, de modo a fazer com que se sinta ao mesmo tempo a sua força de origem e a sua plasticidade se expandirem no próprio sangue do homem. O estado sangüíneo é a razão de ser do bife: os graus de sua preparação são expressos não em calorias, mas em imagens de sangue(...) A sua preparação, mesmo moderada, não pode se exprimir francamente; para este estado contrário à natureza, é necessário um eufemismo: diz-se que 'o bife está no ponto´, o que, na verdade, é apresentado mais como um limite do que como uma perfeição.
Comer um bife sangrando representa assim, ao mesmo tempo, uma natureza e uma moral (...) E assim como o vinho se transforma, para um bom número de intelectuais, em substância mediúnica que os conduz à força original da natureza, do mesmo modo o bife é para eles um alimento de redenção, graças ao qual tornam o seu cerebralismo mais prosaico e conjuram, pelo sangue e a polpa mole, a secura estéril de que são acusados.
A moda do bife tártaro, por exemplo, constitui uma operação de exorcismo contra a associação romântica da sensibilidade e do aspecto doentio: na preparação do bife tártaro, estão presentes todos os estados germinantes da matéria: o purê sangüíneo e a clara viscosa do ovo, um concerto de substâncias moles e vivas, uma espécie de compêndio significativo das imagens dos prelúdios do parto.
Tal como vinho, na França o bife é um elemento básico, mais nacionalizado do que socializado, estando presente em todos os cenários da vida alimentar: chato, debruado de gordura e em forma de sola de sapato nos restaurantes baratos; espesso e suculento nos restaurantes especializados; cúbico, o coração úmido, sob uma fina crosta carbonizada, na cozinha de primeira; participa de todos os ritmos, desde a confortável refeição burguesa ao lanche boêmio do celibatário; é uma alimentação simultâneamente rápida e densa, que realiza a mais perfeita união entre a economia e a eficácia, a mitologia e a plasticidade do seu consumo..."
terça-feira, 21 de agosto de 2007
A Endoscopia dos Vegetarianos
Fiquei um tempo sem escrever porque virei vegetariana e plantadora de erva-cidreira. Como tenho apenas quartas e quinta-feiras livres, decidi aprender a lidar com sementes, soja e trocentos legumes que não conhecia.
Mas não foi assim tão fácil virar saudável. Tudo começou como um soco no estômago. Três dias de ressaca, por culpa dos meus cinco cafés por dia, nada no jantar e cerveja quatro vezes por semana.
O médico apalpou minha barriga dizendo, "é temos aqui uma leve gastrite...você vai ter que fazer uma ENDOSCOPIA".
A palavra fez doer ainda mais o estômago, lembrei do que meu avô contava, daquele cano, que na ponta leva uma minicâmera, descendo pela goela até a extremidade do corpo. Nojo.
Para me livrar do tal exame endoscópico decidi limpar o corpo eu mesma. Agora pela goela ao invés de canos, descem quibes de abóbora, pães integrais, medalhões de ricota e sucos de cidreira.
Talvez comece a escrever sobre carnívoros e viciados em cafeína para suprir meu intenso desejo por aquilo que eles consomem, aliviando assim meu subconsciente.
Mas não foi assim tão fácil virar saudável. Tudo começou como um soco no estômago. Três dias de ressaca, por culpa dos meus cinco cafés por dia, nada no jantar e cerveja quatro vezes por semana.
O médico apalpou minha barriga dizendo, "é temos aqui uma leve gastrite...você vai ter que fazer uma ENDOSCOPIA".
A palavra fez doer ainda mais o estômago, lembrei do que meu avô contava, daquele cano, que na ponta leva uma minicâmera, descendo pela goela até a extremidade do corpo. Nojo.
Para me livrar do tal exame endoscópico decidi limpar o corpo eu mesma. Agora pela goela ao invés de canos, descem quibes de abóbora, pães integrais, medalhões de ricota e sucos de cidreira.
Talvez comece a escrever sobre carnívoros e viciados em cafeína para suprir meu intenso desejo por aquilo que eles consomem, aliviando assim meu subconsciente.
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
Você sabe o que é Cochonila?
Pesquisando receitas vegetarianas no site www.vegetarianismo.com.br encontrei mais uma denúncia daqueles que não comem carne às atrocidades cometidas pelos carnívoros.
Falo da Cochonila. Que segundo o site é "um corante vermelho intenso feito com corpos secos de Dactylopius coccus, um inseto mexicano. Bilhões de insetos são criados e destruídos todo ano na fabricação de um corante vermelho usado em sobremesas, leites de soja sabor morango, roupas etc". Bizarro.
Falo da Cochonila. Que segundo o site é "um corante vermelho intenso feito com corpos secos de Dactylopius coccus, um inseto mexicano. Bilhões de insetos são criados e destruídos todo ano na fabricação de um corante vermelho usado em sobremesas, leites de soja sabor morango, roupas etc". Bizarro.
terça-feira, 7 de agosto de 2007
Para os comentadores
Não posso deixar de fazer menção aos comentários dos prezados Carlos Cecconello e Clara Caldeira, que se encontram no artigo da "Bunda" e do afrancesado La Serveuse. Devo agradecer por aqui mesmo, já que é muito bizarro comentar no meu próprio blog.
Estranho porque não é como responder um e-mail ou mandar um "scrap" de volta no yogurte. Pois apesar do papel que devo assumir de mediadora, parece que estou respondendo para mim mesma.
Sobre a fronteira entre literário e jornalístico (fez cócegas no umbigo ler isso de dona Caldeira!) ouvimos hoje mesmo de nosso "Walter Ego" a classificação das crônicas que é entre a arte e o jornalismo. Espero poder viver sempre nesse lugar aliás! E o texto The Tv Cave é meu (opa). A sessão leitura, aconteceu na aula do Faro.
E quanto à Cecconello, agradeço a compreensão em relação a minha figuração como garçonete aos fins-de-semana, e devo dizer que você deveria colocar no youtube a sua encenação como batedor de pênalti nas eleições, "mais um brasileiro participativo, votando com carinho"!uhuhu, rsss...
Um abraço queridos!
Estranho porque não é como responder um e-mail ou mandar um "scrap" de volta no yogurte. Pois apesar do papel que devo assumir de mediadora, parece que estou respondendo para mim mesma.
Sobre a fronteira entre literário e jornalístico (fez cócegas no umbigo ler isso de dona Caldeira!) ouvimos hoje mesmo de nosso "Walter Ego" a classificação das crônicas que é entre a arte e o jornalismo. Espero poder viver sempre nesse lugar aliás! E o texto The Tv Cave é meu (opa). A sessão leitura, aconteceu na aula do Faro.
E quanto à Cecconello, agradeço a compreensão em relação a minha figuração como garçonete aos fins-de-semana, e devo dizer que você deveria colocar no youtube a sua encenação como batedor de pênalti nas eleições, "mais um brasileiro participativo, votando com carinho"!uhuhu, rsss...
Um abraço queridos!
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
Olha só a pérola enviada pelo glorioso prof. José Arbex:

"A experiente jornalista Susan Bunda acaba de ser promovida Presidenta de Desenvolvimento e Estratégia da CNN Internacional. Na sua nova posição, segundo informa a assessoria de imprensa da rede de TV, Bunda terá novos desafios, como o desenvolvimento de palataformas para consumidores e o incentivo a novos talentos jornalísticos. Com 20 anos de experiência, Bunda também deve trabalhar na integração da televisão e da internet".
domingo, 22 de julho de 2007
The TV Cave
Acorda, pega o isqueiro, o cilindro cancerígeno e leva o último até a boca. Ainda se encontra deitada, com metade do rosto iluminado pelo dia. Basta um encontro de luzes e o marlboro está aceso. E ela traga sem piscar.
Ana Luzia é uma menina amarela; nunca sai, não janta fora, nem encontra amigos. Só tem um hobbie, com o qual ocupa o dia inteiro, assistir televisão.
Por isso, logo depois de seu cigarro, estendeu a mão até o controle remoto e ligou todos os seus fetiches, sonhos e aspirações de uma só vez...
O que ela encontrou foi um daqueles programas de culinária, uma tal de Claudete dando a receita de uma torta de chocolate. E nos intervalos, como de costume, estavam os aparelhos emagrecedores, os cremes anti-celulite, a máscara contra espinhas.
Ana se viu num paradoxo, do qual nós somos vítimas ao assistir programas como esse, ela não sabia se comia uma torta de chocolate ou se ligava para o "zero-onze-quatorze-zero-meia"a fim de pedir o abshaper, o aparelho que dá choques na barriga e "faz"com que as gorduras de tortas de chocolate vão embora.
Enfim o que ela decidiu foi mesmo comer, pois o estômago já parecia roncar, e ela poderia "malhar com a Claudete" e um grupo de lambaeróbica que estariam na telinha às duas da tarde.
Luzia morava sozinha, e nunca aprendera a cozinhar, então pediu uma torta por telefone e a comeu assistindo ao programa da Frangélica, onde Fábio Assunção contava sobre o sexo entre ele e sua namorada, como eles se vestiam um para o outro, a hora certa de pôr a camisinha; enquanto a apresentadora suspirava e concordava.
A menina não se incomodou com a entrevista que assistia, até que a namorada de Fábio apareceu na TV e deu um beijo no namorado. Nessa hora Ana sentiu uma dor de enjôo que a fez parar de comer. Foi então até a janela e olhou para todas as pessoas que andavam pelas ruas, olhou para um bar que ficava de frente para sua casa e assistiu as pessoas se divertindo. Mas, de alguma forma, elas não a convidavam, nem a faziam se sentir bem, como na televisão.
Por isso, a dor começou a aumentar e uma lágrima quase caiu, porém Luzia recuperou suas forças ao olhar para o caixote eletrônico; um filme de amor começaria dali a duas horas e o coração dela voltou a bater apressado e "feliz".
A história era de um casal de adolescentes que estudavam na mesma escola e se apaixonam, e após vários conflitos, trapalhadas, erros e acertos eles terminam juntos e felizes para sempre.
Com a TV ainda ligada, Ana enxuga as lágrimas de seu rosto e vai até o banheiro, porém não esquece de aumentar o volume para ouvir quando a ginástica da Claudete vai começar. Faz tudo apressado, dá descarga, lava as mãos e volta correndo para o seu quarto-sala, quando ouve a chamada do programa.
A lambaeróbica começa, os movimentos são repetidos por Ana que se cansa rápido, faz um bom tempo que ela anda fora de forma, desde os seis anos de idade, quando os pais começaram a deixá-la assistir televisão até tarde da noite. Ela dormia tarde, acordava tarde, portanto desencanava das atividades do dia e passou a comer muito mais, também pelo fato de "estar em fase de crescimento", como diz a lenda.
Enfim, depois de meia hora ela terminou os exercícios e resolveu deitar em sua cama. Pegou o controle, abaixou o volume e afundou a cabeça no travesseiro. Não conseguiu dormir, então levantou-se, caminhou até a cozinha, fez um hamburger e foi comer em sua cama. Assistiu a qualquer outra novela da globo. E voltou à cozinha, a fim de deixar seu prato no lava-louças.
Ia abrindo vagarosamete a máquina, quando subitamente a campainha tocou em um volume exagerado. Com o susto, Ana Luzia quebrou o prato. Porém sua reação seguinte não foi surpreendente, muito menos desesperada, não costumava ser assim, portanto caminhou até a porta e cumprimentou a única pessoa que a visitava toda semana, sua mãe.
Ana disse oi, a mãe, Lúcia, respondeu angustiada, a relação das duas era vazia, não possuíam nada em comum, nem se abraçavam muito.
Já dentro da casa, as duas se olharam e nada tinham pra trocar, então Dona Lúcia foi até a cozinha fazer uma pipoca, e Ana sem sorrisos a convidou para assistir televisão.
Então elas caminharam até a cama de Ana e por lá ficaram até que Luzia adormecesse. E pela primeira vez no dia a vida da menina foi desligada por um pesado controle remoto, e a mãe a cobriu e deu um beijo em seu rosto amarelado despedindo-se. Foi embora...deixando sua filha só na escuridão.
Ana Luzia é uma menina amarela; nunca sai, não janta fora, nem encontra amigos. Só tem um hobbie, com o qual ocupa o dia inteiro, assistir televisão.
Por isso, logo depois de seu cigarro, estendeu a mão até o controle remoto e ligou todos os seus fetiches, sonhos e aspirações de uma só vez...
O que ela encontrou foi um daqueles programas de culinária, uma tal de Claudete dando a receita de uma torta de chocolate. E nos intervalos, como de costume, estavam os aparelhos emagrecedores, os cremes anti-celulite, a máscara contra espinhas.
Ana se viu num paradoxo, do qual nós somos vítimas ao assistir programas como esse, ela não sabia se comia uma torta de chocolate ou se ligava para o "zero-onze-quatorze-zero-meia"a fim de pedir o abshaper, o aparelho que dá choques na barriga e "faz"com que as gorduras de tortas de chocolate vão embora.
Enfim o que ela decidiu foi mesmo comer, pois o estômago já parecia roncar, e ela poderia "malhar com a Claudete" e um grupo de lambaeróbica que estariam na telinha às duas da tarde.
Luzia morava sozinha, e nunca aprendera a cozinhar, então pediu uma torta por telefone e a comeu assistindo ao programa da Frangélica, onde Fábio Assunção contava sobre o sexo entre ele e sua namorada, como eles se vestiam um para o outro, a hora certa de pôr a camisinha; enquanto a apresentadora suspirava e concordava.
A menina não se incomodou com a entrevista que assistia, até que a namorada de Fábio apareceu na TV e deu um beijo no namorado. Nessa hora Ana sentiu uma dor de enjôo que a fez parar de comer. Foi então até a janela e olhou para todas as pessoas que andavam pelas ruas, olhou para um bar que ficava de frente para sua casa e assistiu as pessoas se divertindo. Mas, de alguma forma, elas não a convidavam, nem a faziam se sentir bem, como na televisão.
Por isso, a dor começou a aumentar e uma lágrima quase caiu, porém Luzia recuperou suas forças ao olhar para o caixote eletrônico; um filme de amor começaria dali a duas horas e o coração dela voltou a bater apressado e "feliz".
A história era de um casal de adolescentes que estudavam na mesma escola e se apaixonam, e após vários conflitos, trapalhadas, erros e acertos eles terminam juntos e felizes para sempre.
Com a TV ainda ligada, Ana enxuga as lágrimas de seu rosto e vai até o banheiro, porém não esquece de aumentar o volume para ouvir quando a ginástica da Claudete vai começar. Faz tudo apressado, dá descarga, lava as mãos e volta correndo para o seu quarto-sala, quando ouve a chamada do programa.
A lambaeróbica começa, os movimentos são repetidos por Ana que se cansa rápido, faz um bom tempo que ela anda fora de forma, desde os seis anos de idade, quando os pais começaram a deixá-la assistir televisão até tarde da noite. Ela dormia tarde, acordava tarde, portanto desencanava das atividades do dia e passou a comer muito mais, também pelo fato de "estar em fase de crescimento", como diz a lenda.
Enfim, depois de meia hora ela terminou os exercícios e resolveu deitar em sua cama. Pegou o controle, abaixou o volume e afundou a cabeça no travesseiro. Não conseguiu dormir, então levantou-se, caminhou até a cozinha, fez um hamburger e foi comer em sua cama. Assistiu a qualquer outra novela da globo. E voltou à cozinha, a fim de deixar seu prato no lava-louças.
Ia abrindo vagarosamete a máquina, quando subitamente a campainha tocou em um volume exagerado. Com o susto, Ana Luzia quebrou o prato. Porém sua reação seguinte não foi surpreendente, muito menos desesperada, não costumava ser assim, portanto caminhou até a porta e cumprimentou a única pessoa que a visitava toda semana, sua mãe.
Ana disse oi, a mãe, Lúcia, respondeu angustiada, a relação das duas era vazia, não possuíam nada em comum, nem se abraçavam muito.
Já dentro da casa, as duas se olharam e nada tinham pra trocar, então Dona Lúcia foi até a cozinha fazer uma pipoca, e Ana sem sorrisos a convidou para assistir televisão.
Então elas caminharam até a cama de Ana e por lá ficaram até que Luzia adormecesse. E pela primeira vez no dia a vida da menina foi desligada por um pesado controle remoto, e a mãe a cobriu e deu um beijo em seu rosto amarelado despedindo-se. Foi embora...deixando sua filha só na escuridão.
quarta-feira, 18 de julho de 2007
La Serveuse
Esse fim-de-semana participei de um filme. O nome é Sue Lee. Tudo começou com a Fernanda, minha colega-descolada de trabalho, perguntando:
- Amanda, você usa calça 38?
- Sim...acho que sim, as vezes 40, por quê?
- Porque você será a garçonete do meu filme...amanhã eu trago a roupa e você experimenta...
- Ih...não sei não, e se não servir?
- Ah, não se preocupe, vai servir sim...
No dia seguinte, fiquei quieta, mas Fernanda disse: "olha só o que eu trouxe"...E tirou uma calça azul jeans, com um elástico na parte de baixo, moderna, feito aqueles modelos copiados do nepal, junto vinha também um avental.
Experimentei e serviu. Logo, sábado, as 10h da manhã, (sábado!) estava eu na rua Peixoto Gomide, pronta para ser uma figurante, assim como as outras cinco pessoas ao meu redor. Um corre-corre, caixas e caixas de batom, lápis, pente, grampos...roupas espalhadas e pessoas modernetes conversando, cada um querendo saber o papel do outro.
A equipe surpreendeu, esperava uma meia dúzia de gato pingado e a mãe e avó da Fernanda cuidando do figurino e da maquiagem... Mas encontrei diretor de arte, fotógrafo, seguranças, servidores de lanche, duas maquiadoras e figurinistas lindas e diversos aparatos de filmagem.
Já pronta desci, ouvia a equipe posicionar todo mundo, inclusive eu. Era simples, servir um café numa mesa. Vinte vezes seguidas, claro, para que a sintonia com a câmera fosse perfeita. Mas não exigiu tanto esforço assim.
Ser figurante é engraçado, parece brincadeira, você não fala de verdade, não precisa ler o roteiro, nem sabe o título do filme...
De qualquer forma, uma vez lá, isso parece tomar uma importância gigantesca, talvez pelo fato de que eternizarão sua imagem no vídeo. As pessoas ficam fascinadas quando você diz que trabalhará num filme...Minha mãe contou pra todo mundo, tia, avô, amigos, primos, justificava minha ausência na reunião de domingo, dizendo que estava auxiliando numa produção de cinema.
E todos já aguardavam ansiosos para comprar o ingresso, queriam o nome do diretor, a história, saber onde ia passar...Achei tudo bizarro, claro. Por que se fascinam tanto com isso? Por que ter seu rosto publicado é tão importante?
Se eu escolhesse ser atriz será que teriam a mesma reação? Os seres imagéticos são sempre mais interessantes do que seres reais, veja, para minha vó é mais fácil dizer para sua vizinha, "olha aquela ali na tela é a minha neta"...Do que me apresentar pessoalmente a outra.
Oh...semiótica ajudai a esse povo carente de heróis...Que até eu pra criar glamour tô botando título afrancesado!
- Amanda, você usa calça 38?
- Sim...acho que sim, as vezes 40, por quê?
- Porque você será a garçonete do meu filme...amanhã eu trago a roupa e você experimenta...
- Ih...não sei não, e se não servir?
- Ah, não se preocupe, vai servir sim...
No dia seguinte, fiquei quieta, mas Fernanda disse: "olha só o que eu trouxe"...E tirou uma calça azul jeans, com um elástico na parte de baixo, moderna, feito aqueles modelos copiados do nepal, junto vinha também um avental.
Experimentei e serviu. Logo, sábado, as 10h da manhã, (sábado!) estava eu na rua Peixoto Gomide, pronta para ser uma figurante, assim como as outras cinco pessoas ao meu redor. Um corre-corre, caixas e caixas de batom, lápis, pente, grampos...roupas espalhadas e pessoas modernetes conversando, cada um querendo saber o papel do outro.
A equipe surpreendeu, esperava uma meia dúzia de gato pingado e a mãe e avó da Fernanda cuidando do figurino e da maquiagem... Mas encontrei diretor de arte, fotógrafo, seguranças, servidores de lanche, duas maquiadoras e figurinistas lindas e diversos aparatos de filmagem.
Já pronta desci, ouvia a equipe posicionar todo mundo, inclusive eu. Era simples, servir um café numa mesa. Vinte vezes seguidas, claro, para que a sintonia com a câmera fosse perfeita. Mas não exigiu tanto esforço assim.
Ser figurante é engraçado, parece brincadeira, você não fala de verdade, não precisa ler o roteiro, nem sabe o título do filme...
De qualquer forma, uma vez lá, isso parece tomar uma importância gigantesca, talvez pelo fato de que eternizarão sua imagem no vídeo. As pessoas ficam fascinadas quando você diz que trabalhará num filme...Minha mãe contou pra todo mundo, tia, avô, amigos, primos, justificava minha ausência na reunião de domingo, dizendo que estava auxiliando numa produção de cinema.
E todos já aguardavam ansiosos para comprar o ingresso, queriam o nome do diretor, a história, saber onde ia passar...Achei tudo bizarro, claro. Por que se fascinam tanto com isso? Por que ter seu rosto publicado é tão importante?
Se eu escolhesse ser atriz será que teriam a mesma reação? Os seres imagéticos são sempre mais interessantes do que seres reais, veja, para minha vó é mais fácil dizer para sua vizinha, "olha aquela ali na tela é a minha neta"...Do que me apresentar pessoalmente a outra.
Oh...semiótica ajudai a esse povo carente de heróis...Que até eu pra criar glamour tô botando título afrancesado!
segunda-feira, 16 de julho de 2007
Raspadinha
Por causa do Cildo Meireles entrei hoje no site da galeria Luisa Strina. Sensacional. Acabei descobrindo uma exposição, de Tonico Lemos Auad, onde há uma instalação com um papel de parede, revestido por uma tinta prateada "que pode ser arranhada e retirada pelo público", como uma "raspadinha"! Em baixo da tinta o artista criou umas imagens...
Não sei se a alegria maior quando eu era pequena era raspar com uma moeda o tal papel prateado, ou se ver o prêmio do bilhete comprado.
Na verdade dava um baita azar pra esses "sorteios", por isso acho que era mais uma curiosidade pelo que havia embaixo da tinta prateada, talvez a mesma que o garoto que lê revista de mulher pelada tem. Igual no processo de comprar na banca o bilhetinho, levar para casa e raspar sozinho, um certo egoísmo de ir para um canto e pensar "se eu raspar eu fico com o prêmio".
Tinha também aquela sensação gostosa de ver o pó prata sair, a mesma de arrancar a tinta de uma parede velha e lascada (nos sentimos uns vândalos fazendo isso, mas é tãooo bom).
Um certo prazer de depredar algo sem ser reprimida, estragar sem ouvir um não dos pais, pelo contrário ver os olhos deles brilharem na esperança de que você ganhe alguma coisa.
Agora, uma década mais tarde sinto o mesmo impulso ao saber da exposição do Tonico...Vou lascar mais uma parede.
Exposição Arqueologia Refletida
De 21 de maio a 28 de junho
www.galerialuisastrina.com.br
Não sei se a alegria maior quando eu era pequena era raspar com uma moeda o tal papel prateado, ou se ver o prêmio do bilhete comprado.
Na verdade dava um baita azar pra esses "sorteios", por isso acho que era mais uma curiosidade pelo que havia embaixo da tinta prateada, talvez a mesma que o garoto que lê revista de mulher pelada tem. Igual no processo de comprar na banca o bilhetinho, levar para casa e raspar sozinho, um certo egoísmo de ir para um canto e pensar "se eu raspar eu fico com o prêmio".
Tinha também aquela sensação gostosa de ver o pó prata sair, a mesma de arrancar a tinta de uma parede velha e lascada (nos sentimos uns vândalos fazendo isso, mas é tãooo bom).
Um certo prazer de depredar algo sem ser reprimida, estragar sem ouvir um não dos pais, pelo contrário ver os olhos deles brilharem na esperança de que você ganhe alguma coisa.
Agora, uma década mais tarde sinto o mesmo impulso ao saber da exposição do Tonico...Vou lascar mais uma parede.
Exposição Arqueologia Refletida
De 21 de maio a 28 de junho
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sexta-feira, 13 de julho de 2007
Corinthians ressurgirá das cinzas?
Insano...quem viu? Prisão preventiva do Kia e do Berezovski...E Dualib, Nesi Curi e Renato Duprat denunciados a Justiça Federal pelo Ministério Público.
Vai um papel aí?
Voltando para casa esses dias encontrei um vendedor ambulante no ônibus. A princípio não me dei conta de que ele era um, pois estava sentado comendo um cheetos de queijo fedorento, quieto em seu assento.
Mas ele levantou em algum momento, colocou o saco vazio de salgadinho numa sacola, e, com as mãos ainda imundas de farelo, começou a distribuir pequenos pedaços de papel de folha pautada, cortados a mão, aos passageiros do ônibus.
Quando chegou minha vez, peguei o papelzinho, virei-o de todos os lados, e o que quase consegui ler foi a letra "P". Era isso, o papelzinho com um pê e com cheiro de cheetos o que ele vendia.
Depois que todos receberam o seu, o vendedor se dirigiu a frente do ônibus, e pensei que fosse iniciar seu discurso-propaganda: "Boa tarde passageiros, desculpe incomodá-los, mas esse é o meu trabalho. Gostaria de oferecer esses deliciosos "papeizinhos" por apenas um real...".
Mas não, ele não fez isso, apenas ficou ali, parado, olhando para o rosto das pessoas... E passados cinco minutos, foi de mão em mão recolhendo de volta o que lhes havia emprestado. Que eu saiba ninguém comprou, mas o mais absurdo é que também não repararam no que havia se passado, agiram naturalmente como se o que tivessem oferecido ã eles fossem chocolates, balas, amendoins, algo que não interessava comprar para si.
Terá sido uma provocação ou uma simples loucura de um cara cansado do nosso senso comum estúpido?
Mas ele levantou em algum momento, colocou o saco vazio de salgadinho numa sacola, e, com as mãos ainda imundas de farelo, começou a distribuir pequenos pedaços de papel de folha pautada, cortados a mão, aos passageiros do ônibus.
Quando chegou minha vez, peguei o papelzinho, virei-o de todos os lados, e o que quase consegui ler foi a letra "P". Era isso, o papelzinho com um pê e com cheiro de cheetos o que ele vendia.
Depois que todos receberam o seu, o vendedor se dirigiu a frente do ônibus, e pensei que fosse iniciar seu discurso-propaganda: "Boa tarde passageiros, desculpe incomodá-los, mas esse é o meu trabalho. Gostaria de oferecer esses deliciosos "papeizinhos" por apenas um real...".
Mas não, ele não fez isso, apenas ficou ali, parado, olhando para o rosto das pessoas... E passados cinco minutos, foi de mão em mão recolhendo de volta o que lhes havia emprestado. Que eu saiba ninguém comprou, mas o mais absurdo é que também não repararam no que havia se passado, agiram naturalmente como se o que tivessem oferecido ã eles fossem chocolates, balas, amendoins, algo que não interessava comprar para si.
Terá sido uma provocação ou uma simples loucura de um cara cansado do nosso senso comum estúpido?
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